Após tragédia, Brumadinho pode sofrer com surtos de dengue e febre amarela

Alex de Jesus

Além das vidas perdidas, dos desabrigados e do desastre ambiental, a cidade de Brumadinho, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, pode passar por uma outra crise após o rompimento de uma barragem da empresa Vale. De acordo com um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o municipio pode apresentar sérios problemas na área de saúde após a tragédia. 

De acordo com a pesquisa, existe a possiblidade de surtos de doenças infecciosas como dengue, febre amarela e esquistossomose, além do agravamento de problemas crônicos de saúde, como hipertensão, diabetes e doenças mentais em Brumadinho.

Segundo a fundação, a contaminação do rio pelos rejeitos de minério faz com que as pessoas passem a armazenar água dentro de casa de maneira incorreta, dando oportunidade para a proliferação de mosquitos que espalham doenças como a dengue e a febre amarela.

O consumo da água o de alimentos contaminados também podem causar sintomas como diarreria e dores estomacais. A fundação alerta que essa contaminação também pode acontecer pelo ar.

Sobre o agravamento as doenças crônicas, o instituto obseva que o número aumentou em tragédias parecidas. "Um aumento de casos de acidentes vascular-cerebrais foi observado após as enchentes de Santa Catarina em 2008 e do acidente de Fukujima, Japão, mesmo depois de meses dos eventos disparadores. Estes casos podem ser consequência tanto de situações de estresse e transtornos pós-traumáticos, quanto da perda de vínculo com os sistemas de atenção básica de saúde. Neste sentido, as doenças mentais decorrentes de grandes desastres ambientais podem ser sentidas alguns anos após o evento traumático, como relatado em Mariana", destacou Christovam Barcellos, pesquisador titular do Laboratório de Informação em Saúde do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Lis/Icict) da Fiocruz.

"A presença de uma grande quantidade de material em suspensão nas águas dos rios afetados causou a imediata mortandade de peixes e inviabiliza a captação e tratamento da água para consumo humano", disse o especialista.

A falta de tratamento de esgosto na região também pode ser um problema, de acordo com Barcellos, uma vez que pode facilitar também a proliferação da esquistossomose.  "A transmissão de esquistossomose é facilitada pelo contato com rios contaminados por esgotos domésticos e com presença de caramujos infectados"

Ainda segundo o pesquisador, "a bacia do rio Paraopeba é uma área de transmissão de febre amarela e um novo surto da doença não pode ser descartado." Ele ainda pediu para que a população ficasse em dia com a vacinação de forma urgente.

No dia 30 de janeiro, o governo federal se comprometeu a permitir um acréscimo de recursos para a saúde no  estado de Minas Gerais de cerca de R$ 190 milhões em 2019. A demanda e os acertos foram discutidos em reunião entre o secretário em exercício de Minas, José Farah Júnior, com o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. No encontro, o governo de mineiro pediu ao governo federal apoio às políticas de saúde no estado e ao atendimento às vítimas da tragédia de Brumadinho.

“São situações que não tinham sido solicitadas anteriormente e que são serviços que já acontecem e têm que ser homologados. Isso já vai dar uma ajuda”, explicou Mandetta sobre a crise em Brumadinho . 

O secretário Farah Júnior afirmou que o estado está com problemas financeiros e que a verba adicional será necessária. “Estamos com dificuldade de caixa. Viemos aqui pedir ajuda do governo federal para tentar equilibrar as contas, estamos com questões com fornecedores, na aquisição de medicamentos”.

O ministro da Saúde informou que além do montante adicional, a equipe da pasta estuda formas de antecipar parcelas, em vez do pagamento parcelado mês a mês. Seria uma forma de injeção adicional no início do ano.

O encontro estava agendado antes do rompimento da barragem da Vale , e foi aproveitado para tratar do tema. Na conversa, os integrantes da secretaria estadual solicitaram apoio com um lote adicional de vacinas para além da reserva já disponível, em quantidade ainda a ser avaliada.

Também foi requerido auxílio em medidas operacionais, como na compra de medicamentos, uma vez que a administração estadual está tendo dificuldade na aquisição em razão dos atrasos no pagamento de fornecedores.

Outra frente destacada pelo secretário é o apoio em termos de saúde emocional aos sobreviventes, feridos e às famílias das vítimas. Há necessidade de assistência psicológica para lidar com as perdas de entes queridos e eventuais tratamentos de processos como crises de pânico, depressão e quadros semelhantes decorrentes do sofrimento das pessoas envolvidas na tragédia.

No início da tarde da última sexta-feira (25) uma barragem 1 da Mina do Corrégo do Feijão, que pertence a empresa Vale, se rompeu na cidade da Região Metropolitana de Belo Horizonte. O município foi invadido pela lama e pelos rejeitos de minerio e centenas de pessoas ficaram desaparecidas.

Muitas vítimas são funcionários ou terceirizados da própria Vale, que tinha um complexo administrativo no local. O refeitório da empresa ficava muito perto da barragem rompida e foi totalmente soterrado. Até agora, foram contabilizadas 134 mortes e 199 pessoas ainda estão desaparecidas.

Integrantes do governo federal já admitiram que  não será possível resgatar os corpos de todas as vítimas da tragédia em Minas Gerais. “Este é um episódio de muita gravidade. Algumas pessoas, triste e lamentavelmente, não serão recuperadas", disse o ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, após reunião do comitê de crise montado pelo Palácio do Planalto para acompanhar a situação.

Após a tragédia de  Brumadinho , dois engenheiros que atestaram a segurança da barragem, além de três funcionários da Vale, foram presos. O governo federal já afirmou que "tomará medidas" para impedir tragédias parecidas e falou em aumentar a fiscalização. Hospitalizado por conta de uma cirurgia, o presidente Jair Bolsonaro viajou à cidade mineira antes de ser internado.

Fonte: Portal IG