Greve de caminhoneiros colocou Petrobras em xeque e expôs dependência rodoviária

Roberto Parizotti/Fotos Públicas

O ano de 2018 foi marcado, entre o final de maio e o início de junho, pela greve dos caminhoneiros, movimento que paralisou estradas, esvaziou prateleiras de mercados e demonstrou a insatisfação da categoria de caminhoneiros com a nova política de preços da Petrobras, definida pelo governo do presidente Michel Temer (MDB), além de trazer críticas a todo o sistema político.

Iniciada em julho de 2017, a nova política tinha como objetivo principal acompanhar a oscilação internacional dos preços do petróleo. Liderada por Pedro Parente, a Petrobras entendia que o ideal para recuperar a confiança dos investidores após perdas durante o governo Dilma Rousseff (PT), quando os preços eram controlados, seria passar a adotar uma política de teor liberal, que alinhasse o Brasil às práticas comuns do setor privado internacional. A ideia não agradou e, menos de um ano após sua adoção, ela acabou sendo um dos estopins para a  greve dos caminhoneiros.

O que se viu, na prática, foi um aumento acumulado superior a 50% no preço dos combustíveis no Brasil em um período de 10 meses. A retrospectiva 2018 sobre a greve e os combustíveis mostra que, a curto prazo, a medida de seguir o mercado internacional não se mostrou efetiva e ajudou a construir a crise que desencadeou a paralisação dos caminhoneiros.

Para a economia, a paralisação teve grande impacto nos resultados anuais. O Produto Interno Bruto (PIB), que é a soma de todos os bens produzidos no País em dado período, chegou a ter crescimento projetado de até 3%, mas acabou recalculado para 1,3%. Na última semana, Temer afirmou que a greve impediu que o crescimento chegasse a 3,5%, um valor nunca antes projetado, seja pelo governo ou o mercado financeiro.  

Entre 2008 e 2014, as variações internacionais do preço do petróleo não refletiam nos preços nacionais do combustível. Foi dessa forma que as administrações petistas de Lula e Dilma Rousseff puderam conter as pressões inflacionárias e não repassar os aumentos aos consumidores finais com frequência e a intensidade vista após a adoção de uma política liberal.

A professora Marcia Fleire Pedroza, do Departamento de Economia da PUC-SP,  explica que o preço se manteve sempre abaixo do mercado internacional e dos custos nacionais para, assim, conter a inflação. "Em 2016, a Petrobras mudou assim que Pedro Parente assumiu e o valor do diesel e da gasolina passa a acompanhar o mercado internacional, o que onerou e muito o preço do combustível”, relembra.

Marcia analisa, ainda, o porquê de a política mais liberal ter resultado no aumento no preço dos combustíveis. “Quando se atrela a política de preço às políticas internacionais, as variações são em cima de moedas internacionais. Não só o petróleo aumentou em termos internacionais como também o real se desvalorizou frente ao dólar. Então, por consequência, os preços são repassados para o preço nacional quando você usa essa política.”

O Brasil é um dos países mais dependentes de rodovias no mundo. Ao todo, 58% de suas mercadorias são distribuídas por meio delas por todo o território nacional, segundo dados do Banco Mundial. No caso específico dos combustíveis derivados do petróleo, chega a 90% o total da produção que depende do transporte rodoviário para escoar.

Os caminhoneiros são a categoria capaz de tornar uma das maiores economias do mundo refém de seus anseios, como foi exposto com as paralisações e suas consequências para a economia nacional. Nos Estados Unidos, por exemplo, 43% do transporte do país é feito por meio de rodovias.

Não bastasse a dependência, as rodovias brasileiras possuem malha limitada e problemática, de apenas 211 mil quilômetros. Novamente usando os americanos como comparação, em um território menor, as estradas abrangem mais de 4,3 milhões de quilômetros. Outro problema brasileiro é o crescimento exponencial da oferta nos últimos anos. Entre 2001 e 2016, a frota de caminhões cresceu 84%. Estimava-se que, há dois anos, havia um excedente de 200 mil veículos transportadores no País.

O excesso de caminhões e a redução da circulação de cargas, uma consequência da recessão dos últimos anos, fez cair o preço dos fretes, prejudicando as companhias de transporte e, evidentemente, os caminhoneiros. Quando a economia voltava a mostrar sinais de crescimento, a elevação do preço do diesel frustrou as expectativas dos caminhoneiros, que então passaram a se unir como classe e protestar, sabendo do poder de alcance que poderiam ter – e tiveram.

Na semana anterior ao início da mobilização, a Associação Brasileira de Caminhoneiros ( Abcam) enviou ofício cobrando "medidas efetivas do governo diante do aumento constante das refinarias e dos impostos que recaem sobre o óleo diesel", ameaçando paralisação nacional.

Em 21 de maio, segunda-feira, estradas começaram a ser interditadas em ao menos 14 estados brasileiros. Já no dia seguinte, após alarde feito por conta do início efetivo dos bloqueios, a ação  se expandiu para ao menos 20 estados. Pedro Parente, então presidente da Petrobras, anunciou redução temporária de 10% no preço do óleo diesel, negando participação do governo na decisão e abandonando sua ideia de seguir somente as variações internacionais, sentindo a necessidade de intervir.

As paralisações começaram a impactar o  reabastecimento de alimentos e combustíveis em ao menos 15 estados e o governo passou então a sentir necessidade de buscar acordo com os manifestantes.

O ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, denunciou “locaute”, que é o apoio ou influência de empresas do setor na paralisação, algo proibido na legislação brasileira, e a Polícia Federal passou a investigar o caso, enquanto Temer recorria aos militares para garantir o fluxo nas estradas e a volta do abastecimento. Para tal, foi realizado decreto de abrangência nacional, que na prática autorizava o Exército a desbloquear rodovias federais e, eventualmente, estradas estaduais e municipais, se solicitados por governadores e prefeitos.

No domingo (27), o sétimo dia de paralisação, governo e Abcam entraram em acordo para pôr fim à paralisação, que continuava, mas em menor intensidade. O desabastecimento chegou a atingir mais de 90% ou mais nos postos de Minas Gerais, Bahia e Distrito Federal, de acordo com dados da Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e de Lubrificantes (Fecombustíveis).  Consumidores passaram a denunciar cobrança abusiva nos postos, e as filas de muitos locais de abastecimento tomaram horas dos brasileiros.

Em São Paulo, levantamento realizado pelo Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP) revelou que a diminuição do tráfego veicular na capital devido à greve dos caminhoneiros e o desabastecimento fez com que a poluição do ar caísse pela metade.

Com menos bloqueios e manifestantes, a Força Nacional passou a  intensificar suas ações para normalizar o trânsito de veículos em rodovias e o  abastecimento de produtos e combustíveis por todo o Brasil.

No 11º dia de protestos, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) informou que 70% do abastecimento de combustíveis havia sido normalizado, e Carlos Marun, ministro da Secretaria do Governo, divulgou  punições aos postos que não repassassem aos consumidores a redução de R$ 0,46 no preço do litro do óleo diesel, que envolviam multas, suspensão temporária de atividade, cassação de licença e interdição de estabelecimentos comerciais.

Para reduzir o preço do diesel, o governo mexeu no orçamento de diversas pastas, inclusive recorrendo a  cortes no SUS e em programas sociais. Pedro Parente, presidente da estatal petroleira durante a mobilização, pediu demissão em 1º de junho, um dia após o fim da greve. Especula-se que a intervenção do governo no preço dos combustíveis motivou a decisão.

Outro fator que explica a mobilização ter atingido patamares inesperados, reunindo mais de 600 grupos de protestos pelo País, protagonizados pelas pautas dos caminhoneiros e suas reinvindicações em relação aos preços dos combustíveis, foi o combate à corrupção e a crítica a todo o sistema político, que deu força a um discurso mais radical, que pedia por intervenção militar e apoiava massivamente o presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL).

Para a professora da PUC-SP, o "discurso conservador e privatista" se fortaleceu com a greve, uma vez que as gestões petistas acabaram culpabilizadas pelos problemas estruturais e pela má gestão na Petrobras. "Mesmo que o governo fizesse com que os combustíveis ficassem mais baratos e os aumentos tenham ocorrido com o governo Temer, isso não importa. Na cabeça da população, nós temos um estado inchadíssimo que controla tudo e repassa todos os seus custos à população. O pensamento do eleitorado foi esse, o que fortaleceu a campanha do presidente eleito”, avalia, ao citar a imagem de ‘fora do sistema’ construída por Bolsonaro.

“O discurso liberal faz sucesso hoje porque o senso comum crê que o mercado vai resolver tudo, uma vez que o uso de um estado mais interventor foi, segundo o imaginário do eleitorado, o causador da crise econômica no País. A resposta liberal a isso é atribuir ao mercado a resolução dos problemas. Com a crise, a maioria procura soluções fáceis, respostas para os problemas, sem necessariamente entender causas e consequências das políticas liberais ou estatizantes. Como a crise é atribuída a um estado inchado, a solução seria reduzi-lo e dar liberdade maior ao mercado”, comenta a professora sobre o fortalecimento de ideias mais liberais na economia nacional, que devem reger o novo governo.

Com a redução do preço do litro do óleo diesel e a desmobilização, os preços passaram a oscilar com menor frequência e intensidade, normalmente semanalmente, embora no início do terceiro trimestre tenha sido notado um fenômeno em que a redução de preços nas refinarias não chegava ao consumidor final, elevando os lucros de distribuidoras, empresas e donos de postos.

A ANP, inclusive, solicitou em novembro esclarecimentos às principais empresas distribuidoras sobre os preços dos combustíveis, devido à redução significativa de preços da gasolina pela Petrobras e que não chegou ao consumidor final, além de cobrar transparência nas fórmulas de precificação e divulgar semanalmente um relatório que mostra os valores praticados por postos e distribuidoras em todo o País.

A greve dos caminhoneiros escancarou a dependência do transporte rodoviário, fortaleceu a ideia de que o estado é incapaz de gerir recursos, mas fez com que algumas reduções nos preços de combustíveis fosse notada, trazendo outras questões, como a diferença entre reduções de preços nas refinarias e nos postos.

Fonte: Portal IG