Bolsonaro bajula Trump e se apresenta como quebra de "tradição antiamericana"

Alan Santos/PR - 18.3.19

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) desfiou elogios e escancarou sua admiração aos Estados Unidos, reforçando a mensagem de que deseja firmar parcerias com o governo do presidente norte-americano, Donald Trump. 

Em discurso realizado nesta segunda-feira (18) na Câmara de Comércio dos Estados Unidos, em Washington, Jair Bolsonaro focou em transmitir a ideia de que ele representa uma mudança para a relação do Brasil com os norte-americanos, chegando a destacar semelhanças entre sua trajetória política e a de Trump em alguns momentos. 

"Confesso que conheci o senhor Donald Trump nas prévias [das eleições americanas, em 2016], quando ele começou a sofrer ataques da mídia, as fake news. Lembrei que sofri isso já dois anos atrás", comparou.

Bolsonaro renovou críticas aos governos anteriores no Brasil, do PT, para impulsionar a mensagem de que haverá melhor relação com os Estados Unidos a partir de agora. O presidente brasileiro e o americano se encontram nessa terça-feira (19), na Casa Branca.

"A guinada da esquerda para o centro-direita fez a diferença no Brasil. O povo cansou-se da política do toma la da cá e dos péssimos exemplos do governo do PT, materializada pelas pessoas de Lula e Dilma Rousseff, que eram antiamericanos. Essa era a tradição do Brasil:  eleger presidentes de mãos dadas com a corrupção e inimigo dos Estados Unidos", disse. "Hoje, temos um presidente amigo dos Estados Unidos."

"O Brasil tem um potencial enorme. Precisamos de bons parceiros. Estou aqui, estendendo as minhas mãos, para que essa parceria se faça cada vez mais presente", continuou. "Devemos dar graças a Deus pela mudança da ideologia presente até há pouco tempo no Brasil. Queremos um Brasil grande, assim como vocês querem uma América grande."

Na mesma linha do ministro Paulo Guedes, que abriu a rodada de discursos durante o evento na Câmara de Comércio, Bolsonaro teceu elogios também ao ex-presidente norte-americano Ronald Reagan e exaltou a cultura dos EUA.

"O povo americano sempre foi inspirador para mim em grande parte das decisões que tomei.O Brasil mudou e nós estamos prontos para ouvi-los de modo que possamos chegar a um bom entendimento para que as políticas tragam paz e prosperidade para o Brasil e para os Estados Unidos", declarou.

O presidente reconheceu sua inexperiência em cargos no Poder Executivo, mas ponderou o fato com elogios ao trabalho de seus 22 de ministros e disse que, com a aproximação com os Estados Unidos, será possível "alavancar não só a economia, bem como os valores que foram deixados". "Acreditamos na família, em Deus, somos contra o politicamente correto e não queremos ideologia de gênero. Para isso temos que trabalhar, e trabalhar duro", complementou.

Bolsonaro também citou brevemente a situação da Venezuela, que atravessa grave crise em meio à disputa pelo poder entre Nicolás Maduro e Juan Guaidó. "Temos que resolver a questão da Venezuela. Aquele povo tem que ser libertado. Contamos com o apoio norte-americano para que esse objetivo seja alcançado."

O ministro da Economia, Paulo Guedes, foi o primeiro a discursar na cerimônia desta tarde. O chefe da equipe econômica do governo exaltou a figura de Bolsonaro – também traçando paralelos entre o capitão da reserva e Donald Trump – e disse que sua eleição no Brasil se deu em razão de seus "princípios e valores". 

"O presidente representa uma mudança em dois eixos: o econômico e o político. Exatamente como aconteceu com Trump aqui, Bolsonaro venceu a eleição falando diretamente com o povo por meio das redes sociais. Ele ganhou baseado em uma plataforma diferente. Primeiro, pelos seus atributos pessoais: a determinação, que é a marca de uma grande liderança. Nossa democracia nunca esteve em risco. Nosso presidente tem 30 anos de experiência no Congresso e ele se recusou a jogar o jogo que contaminou nossa política", disse Guedes.

O ministro da Economia também reforçou o compromisso do governo em aprovar a proposta de reforma da Previdência, num aceno para atrair investidores estrangeiros.

"Bolsonaro está enfrentando a necessidade de controlar os gastos públicos. Ele tem bons princípios, e os brasileiros entenderam isso e votaram em massa no presidente Bolsonaro. Em menos de 60 dias, ele apresentou um pacote anticrime e também a proposta de reforma da Previdência", exaltou Guedes.

Guedes criticou a política econômica adotada nos governos anteriores, atacando especialmente o que chamou de "expansão descontrolada dos gastos públicos". O ministro defendeu a ideia de descentralização do poder, usando como exemplo negativo atos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (que não foi citado nominalmente) para destinar recursos para a construção do estádio do Coritnhians (Itaquerão) e para investimentos em Cuba e na Venezuela.

"O poder político deve ser limitado e descentralizado. Nós não chegamos aí ainda, mas estamos caminhando nessa direção", prometeu.

"Nós temos que criar o sonho brasileiro, e isso é exatamente o que o presidente Bolsonaro fez durante a campanha. É um momento muito importante. Temos um programa econômico muito sólido, na direção certa. Inclusive, a reforma da Previdência, que é uma medida muito dura, é um plano de crescimento futuro", disse.

Esse plano do governo, segundo o ministro, passa pela abertura da economia, pela "redução e ressignificação das taxas" e também pela redução do tamanho do Estado.

Após Guedes, foi a vez de Ernesto Araújo fazer seu pronunciamento no Brazil Day, em Washington. O chanceler também bajulou Bolsonaro, classificado-o como o "líder mais transformador do Brasil em muito tempo" e transmitiu a mensagem de que haverá recuperação da imagem do País no cenário internacional.

"O presidente Jair Bolsonaro está reconfigurando a realidade brasileira de uma maneira poucas vezes vista. A relação com os EUA vinha sendo colocado para baixo. Não por acaso, porque a relação com uma nação aberta, reforça a ideia de liberdade. Ou seja, tudo aquilo que causa pavor a uma certa ideologia", alfinetou.

Os discursos foram proferidos logo após a assinatura de acordo com o governo dos Estados Unidos para que a agência espacial americana, a Nasa, explore comercialmente a base espacial de Alcântara, no Maranhão. Esse foi o primeiro acordo importante assinado durante a visita do presidente Bolsonaro a Washington – visita essa iniciada nesse domingo (17).

O chamado Acordo de Salvaguardas Tecnológicas entre o Brasil e os Estados Unidos permitirá o uso comercial da base de lançamentos aeroespaciais de Alcântara. O tema era discutido desde o governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e, no passado, já foi barrado pelo Congresso Nacional. Mais uma vez, o tratado precisará passar pelo crivo de deputados e senadores brasileiros.

A Base de Alcântara é internacionalmente reconhecida como um ponto estratégico para o lançamento de foguetes, por estar localizada em latitude privilegiada na zona equatorial, o que permite uso máximo da rotação da Terra para impulsionar os lançamentos. Segundo a Agência Espacial Brasileira (AEB), o uso do local, conforme acordado entre os EUA e a gestão Jair Bolsonaro, pode significar uma redução de 30% no uso de combustível, em comparação a outros locais de lançamentos em latitudes mais elevadas.

Fonte: Portal IG