Doria vira cidadão carioca e aponta Paulo Marinho para reerguer PSDB no Rio

iG Montagem

As preocupações do governador de São Paulo, João Doria (PSDB) na sexta-feira (14) iam além da greve geral que ameaçava atrapalhar o transporte público na principal capital do Brasil. De noite, o tucano foi homenageado como cidadão carioca na mansão de Paulo Marinho, no Jardim Botânico, na Zona Sul do Rio. O empresário é a grande aposta do tucano para reconstruir o PSDB no Rio de Janeiro.

Amigo pessoal de João Doria, Paulo Marinho foi importante na campanha de Jair Bolsonaro no ano passado. Mais do que ceder sua mansão para a gravação de programas eleitorais do capitão, Marinho se tornou suplente do filho do presidente, Flávio Bolsonaro, no Senado.

No mesmo jardim sob o Cristo Redentor onde foram gravados os programas eleitorais do então candidato do PSL, Doria buscou modular o discurso para  cariocas e se distanciar de radicalismos, mas repetiu críticas ao PT e saiu em defesa do ministro da Justiça, Sergio Moro, envolvido no caso de vazamento de mensagens. 

Embora o governador de São Paulo não tenha mencionado o projeto para 2022 em seu discurso de 40 minutos,  nas rodas de conversas entre antigos entusiastas de Bolsonaro, ao som de bossa nova e jazz, a questão era se aquela casa elegeria um segundo presidente.

O  jantar para 400 pessoas, entre elas políticos, empresários, advogados, artistas, publicitários e jornalistas, foi oferecido pelo dono da residência. Ex-aliado de Bolsonaro,  Paulo Marinho se filiou ao PSDB e assumirá o comando da legenda no estado, com a missão dada por Doria de renová-lo.

Nascido em São Paulo, o PSDB nunca conseguiu a mesma força no Rio de Janeiro, nem mesmo quando Fernando Henrique Cardoso foi presidente. Atualmente, os tucanos são representados por apenas dois deputados estaduais e três vereadores na capital. Nenhum deputado federal do Rio é filiado à sigla.

Entre os convidados da noite, estavam o ex-ministro Gustavo Bebianno e a líder do governo no Congresso, a deputada Joice Hasselmann (PSL-SP), chamada ao pequeno palco para ficar o lado de Doria enquanto ele era homenageado. Para evitar melindres com o governo, Joice se adiantou:

"Estou com a patota do PSDB, mas eu sou PSL, hein, gente. Só para avisar. O João é meu amigo querido", disse a líder, relembrando que na mesma casa foi firmada a aliança "BolsoDoria", no segundo turno das eleições.

O governador, por sua vez, fez questão de pontuar as diferenças em relação a Bolsonaro.  Ao lado do novo presidente do PSDB, Bruno Araújo,  reforçou que o partido "não será mais um partido de centro-esquerda", mas uma  legenda de  centro com  uma visão liberal e com capacidade de dialogar com todas as matizes ideológicas.

"Será um partido que vai saber dialogar com a esquerda e com a direita, e que vai aceitar o contraditório", disse Doria.

Em outro momento, ao contar sua trajetória desde os 13 anos, afirmou que seu pai foi exilado a partir do golpe de 64 e as consequências sofridas por sua família durante a ditadura militar. Capitão da reserva, Bolsonaro não reconhece o golpe.

Na longa fala em que precisou assoviar duas vezes para ganhar a atenção do público, o governador contou ainda ter decidido entrar para a política por "indigninação" de ver uma "quadrilha roubando o país." Ele defendeu a Operação Lava-Jato e o ministro Sergio Moro. Reportagens do site "The Intercept" divulgaram mensagens que teriam sido trocadas entre o então juiz federal o procurador do Ministério Público Federal, Deltan Dallagnol.

"(É) uma quadrilha que pensa que vai voltar em nome de Lula Livre e desejosa de tornar vítima  um herói brasileiro chamado Sergio Moro. Este juiz salvou o Brasil com a Lava-Jato não merece ser condenado por nada, até porque não fez nada de errado. Ainda que como procedimento talvez não devesse ter cumprido como fez, mas ajudou o Brasil", disse.

Para estar no jantar em que também recebeu  o título de cidadão carioca, Doria abdicou de estar na abertura da Copa América em São Paulo com Jair Bolsonaro. O presidente só se juntou ao governador graças à imitação de André Marinho. Foi no meio da brincadeira que filho do anfitrião, que se especializou em reproduzir a voz e os gestos do chefe do Executivo durante a campanha do ano passado, passou o recado da noite.

"Eu queria dizer uma coisa pra você. Boa sorte pra você. E se depender de ter uma casa dessa aqui abençoanda a sua trajetória, eu sei que você tá meio caminho andado para um dia chegar lá. Tenho certeza disso aí", disse o "Bolsonaro",  na versão de André Marinho a Doria.  Todos riram.

Dono de uma consultoria empresarial, Paulo Marinho se aproximou de Doria graças ao Lide, grupo fundado pelo governador de São Paulo para ser uma espécie de reunião dos principais líderes empresariais do País. Em 2017, Marinho defendeu a candidatura do Tucano ao Planalto, mas se distanciou após o PSDB preferir o nome de Geraldo Alckimin.

O filho de Paulo Marinho, André, é presidente do braço jovem do Lide e, por isso, mantém boas relações com João Doria.

Sócio de Roberto Medina na promoção do Rock in Rio, Marinho se tornou um dos empresários mais conceituados do Rio de Janeiro e Gustavo Bebianno, então mediador da campanha de Bolsonaro, viu no amigo uma oportunidade para ajudar na eleição. Foi nessa época que o executivo trocou o Patriota pelo PSL e aceitou ser suplente de Flávio Bolsonaro ao Senado.

Ao final das eleições, Doria se reaproximou de Paulo Marinho e, com mais força no PSDB, fez o convite para que o empresário se filiasse ao seu partido, o que, até o momento, ainda não aconteceu.

Fonte: Portal IG